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Quem precisa de gerente de manutenção?


Confira o texto escrito por Reinaldo Schumann, que a meu convite escreveu este texto para colaborar com o Blog Manutenção Eficaz, antecipadamente agradeçoao Reinaldo por sua colaboração ao Blog e também a nossa comunidade de manutenção. Segue o texto:

Cenário um, final da década de 1990, em reunião tensa, diante de grande crise no setor, o diretor de grande empresa de papel e celulose informa que cortará as despesas com a manutenção da floresta, um dos presentes pergunta, se agindo assim eles não teriam problemas para dali cinco a seis anos, a resposta foi “tomara”.

Cenário dois, início dos anos 1970, reunião tensa, diante de um grande crescimento do setor, o diretor de grande empresa do setor de telecomunicações, conclui que teria que dobrar o quadro produtivo, perguntado se tão súbito crescimento não criaria problemas nos prazos de entrega e na qualidade do produto, a resposta foi “não, se vocês fizerem seu trabalho bem feito”.

Cenário três, meados dos anos 1980, consultoria contratada para analisar a operação de transporte de cargas para o porto, conclui que era possível que o caminhoneiro que levou a carga, voltasse em outra carreta, desde que ficasse um manobrista para levar a carreta do pátio até o embarque. Perguntados se haviam consultado os motoristas a resposta foi “eles ganham para trabalhar oito horas”.

Apenas com as informações acima disponibilizadas, não é possível concluir se quem questionou ou quem respondeu estava com a razão, não seria difícil porem, concluir que o questionador era o gestor da manutenção, porque tirando o CEO, é o único profissional que tem por obrigação cuidar do futuro. Esta diferença dos demais gestores, que foram treinados para o aqui e agora, algumas vezes estigmatiza o responsável pela manutenção, muitas vezes incompreendido, chamado de detalhista ou perfeccionista, o cara do contra, aquele que quer aparecer etc. Os demais gestores de todos os níveis, muitas vezes acabam por esquecer que os processos produtivos, as instalações e os equipamentos, a matéria prima e muitas vezes até a mão de obra, são muito semelhantes entre todas as empresas de um mesmo setor. À longo prazo o que diferencia as vencedoras das demais é o quanto a mais conseguem fazer com os recursos disponíveis. Qualidade, prazo de entrega confiável e custos reduzidos é função direta das condições dos equipamentos e instalações.

Muitas vezes CEO’s esquecem de se questionar, se um profissional prefere ter a certeza de levar uma bronca hoje ou provavelmente, vir leva-la daqui a alguns dias! Colocam uma mesma pessoa para gerir a produção e a manutenção, sem notar que em caso de dúvida, ela sempre preferirá cumprir os prazos a garantir o futuro, e esperar que falte matéria prima ou energia, que se aprovem horas extras etc., fatos que acabarão por não acontecer e os equipamentos irão deteriorar como uma bola de neve, e como justificativa dirão que os profissionais da manutenção não são qualificados ou não estão comprometidos.

É muito comum que os profissionais da Engenharia de Processos tenham tido pouca vivência em piso de fábrica ou desconheçam as deficiências da mão de obra ou dos recursos disponíveis, condições que tornam muito aconselhável que antes da compra e durante a instalação de um novo processo, a manutenção e a segurança industrial sejam consultadas e que o projeto somente seja concluído após a aprovação destas áreas.

Em épocas de crescimento e, muitas vezes, em empresas familiares, por falta de vivência, a impaciência com o contraditório é grande e aqueles que ousam questionar o caminho do imediatismo, acabam mal quistos, e a perda de produtividade, o aumento do consumo e da indisponibilidade, ocorre aos poucos e de maneira silenciosa. Áreas antes eficientes caminham para a ineficiência, gestores competentes passam a ineficazes e todos passam a ter saudades de um passado de glórias, sem jamais desconfiar da falta que faz um gerente na manutenção.

Gerente da manutenção é aquele profissionalque antevê a falha, reduz a perda de matéria prima e do produto, evita acidentes pessoais, patrimoniais e ecológicos, racionaliza o consumo com energia e utilidades, aprimora equipamentos e processos e garante o futuro das plantas industriais e, para tanto deve participar do planejamento de todas as atividades fabris, ter corresponsabilidade com objetivos e metas da empresa, responder diretamente ao diretor industrial e dispor do mesmo nível hierárquico dos responsáveis por planejamento e suprimentos, pela qualidade e pela produção. Qualquer desiquilíbrio nestas relações será fonte permanente de problemas e de comprometimento ao futuro da empresa.

Resta-nos perguntar: Se o exposto é necessário ao sucesso do negócio, como pequenas empresas industriais sobrevivem? E a resposta é: poucas sobrevivem e as que o fazem é por estar num mercado de pouca concorrência, pulverizarem o número de clientes ou contarem com fornecedores de produtos e serviços externos que supram as funções destes gerentes. Ainda que atuem diretamente com o cliente e sintam a pressão por preço, prazo e qualidade, não terão sobrevida de longo prazo se estas funções não estivem supridas de forma equânime e eficaz.

Devemos nos lembrar de que trabalhar com manutenção é uma especialidade como outra qualquer, tem profissionais talhados para a função, tem os que adquirem esta habilidade e tem os que nela adentraram por oportunismo ou falta de outras opções, conheci alguns que foram lançados nela por serem bons solucionadores de problemas, gostarem de horas extras ou até por não ter dado certo em mais nada. Manutenção como qualidade, vendas, etc. é função estratégica, pode afundar uma empresa, não é lugar de improvisos e se a pessoa não for talhada para a função não há treinamento ou motivação que baste para transformá-lo num bom profissional. O profissional de manutenção não é “resolvedor” é “evitador” de problemas.

Respondendo a pergunta do título: Só precisa de Gerente de Manutenção a empresa que pretende ter sucesso duradouro, os índios brasileiros colhiam e caçavam até que a pesca e a caça se esgotassem, depois mudavam de área em não havendo ninguém a explorá-la ou conseguindo derrotar os ocupantes deste novo território eles lá se estabeleciam e eram felizes até que alguém os extinguisse ou escravizasse, não precisavam de alguém para gerir a manutenção do local. Tem CEO que age da mesma maneira.

Em tempo, nos três cenários iniciais as empresas após algum tempo, tiveram suas ações desvalorizadas, foram vendidas para não serem liquidadas. A primeira por que sem matéria prima, teve de usar árvores cada vez mais novas que exigiam mais produtos químicos e eram menos produtivas, a segunda por ter perdido mercado para o concorrente importado pela perda da qualidade e custos crescentes e, finalmente a terceira, pelo incrível incremento do número de acidentes e quebras dos caminhões, já que os motoristas não tinham mais “sentimento de posse” dos veículos utilizados. Em nenhum dos casos questionador e questionado, permaneceram para vivenciar o caso da empresa.

 

Reinaldo Schumann é fundador e diretor da R. Schumann Desenvolvimento Gerencial e Profissional Ltda.

Gerenciou áreas de produção e de manutenção, energia, utilidades e meio ambiente em empresas como Rhodia, Ericsson, Kaiser, Tecumseh e Komatsu Forest.

Site: http://rschumann.yolasite.com

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  1. Orlando
    agosto 2, 2011 às 12:23 pm

    Um texto que retrata nao apenas os cases de manutencao, mas todos os casos onde as empresas se preocupam apenas com numeros imediatos e se esquecem da manutencao do futuro da cia.
    Parece classico quando um negócio decola e por consequencia disso o capital é altamente remunerado, ai quando se apresentam as crises que sao ciclicas, os gestores cometem esses erros, para manter a rentabilidade a qualquer custo.
    Empresas que nao se preocupam com a manutencao seja de equipamentos, colaboradores ou clientes estao em rota de colisao.
    Aferir a competencia dos gestores e realmente escolher os realmente talhados é um dos grandes desafios que enfrentamos hoje.

  2. José Roberto
    agosto 4, 2011 às 12:46 pm

    Muito bom o texto. Sintetizou bem o que ocorre em muitas empresas. Infelizmente, são poucas aquelas cuja direção possui uma visão tal que valorize devidamente os profissionais da Manutenção. Em geral, a Produção sempre é mais valorizada, pois é vista como a área que “põe dinheiro na empresa”, enquanto que a Manutenção é a que gasta o seu dinheiro.

    Mas quem realmente conhece, sabe que isso não é verdade.

    Em meus 40 anos de Manutenção, percebi que o profissional da Produção, em geral, não passa de um preenchedor de mapas de produção, de um “tocador” de serviço e não necessitando de um nível de formação mais profundo. Na grande maioria das vezes, a carreira de um profissional de produção começou nos serviços gerais e foi galgando posições, passou a operador, encarregado, supervisor, e até mesmo gerente, tendo aprendido tudo o que sabe ali mesmo, dentro daquela empresa. Se perder aquele empreguinho, não consegue se recolocar.

    Para ser um profissional de manutenção, é necessária formação técnica, seja ela a nível de Senai, Técnico de Nível Médio ou Engenharia e, um profissional com essa formação, consegue colocação em qualquer indústria, seja ela naval, química, papeleira, metalúrgica, petrolífera, etc.

    Sem falar que, em geral, o homem da produção enxerga apenas o seu setor, enquanto que o de manutenção, enxerga a empresa como um todo.

    O colega Reinaldo lembrou bem a importância da participação da manutenção nos processos de aquisições, expansões, modernizações e outros. Por isso há uma tendência em se fundir a “Gerência de Manutenção” com a “Gerência de Projetos”, formando então uma “Gerência de Engenharia”, mais participativa, mais integrada e mais eficaz.

    O interessante é que, mesmo assim (e eu sou testemunha disso), a Produção ainda continua sendo a “queridinha” da direção da empresa, apesar de ser mais causadora do que solucionadora de problemas.

    Infelizmente não dá para mostrá-las como exemplo porque, das empresas que trabalhei e que tinham essa mentalidade, uma boa parte já não existe mais e outras encontram-se em franca decadência. Por que será?

    Abraços

  3. setembro 1, 2011 às 1:36 am

    Otimo material.

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